Vamos parar de falar em Inflação!

Se existe alguma coisa que vira de ponta cabeça quando uma recessão descrita por uma queda da demanda agregada (ou PIB nominal) acontece, é o conceito de inflação. Em situações de normalidade econômica – pleno emprego e utilização da capacidade – a inflação é algo indesejável na medida em que aumenta os juros, desencoraja a poupança e induz distorções na alocação do capital.  

No entanto, na situação atual caracterizada por alta taxa de desemprego e demanda agregada muito aquém do seu nível adequado, diz-se que a economia precisa de mais inflação! Subitamente, uma inflação mais elevada, ou mais precisamente uma elevação das expectativas de inflação, se torna algo “bom” para os desempregados, para poupadores e para o crescimento econômico.

Não é de estranhar, portanto, a grande confusão que observamos nas discussões, não só na mídia, como entre os próprios membros do Fed. Deve ser um caso inédito na história do Fed, por exemplo, o fato de um membro ser dissidente em sete reuniões consecutivas do FOMC. Se mantiver sua posição na última reunião do ano em dezembro Thomas Hoenig, presidente do Fed de Kansas City fará um “strike”!

O conceito de inflação é confuso. Certamente é importante, mas qual é a sua medida correta? A figura abaixo mostra algumas das diferenças utilizando somente dois indicadores populares – o PCE (deflator dos bens de consumo) e o CPI – nas suas versões “cheia” e “núcleo” (“core”).

Talvez o melhor que se possa fazer é parar de falar em inflação e principalmente não levá-la em consideração nas reuniões do FOMC para estabelecer a política monetária. Ao invés da inflação, o “alvo” ou “meta” deveria ser o crescimento do dispêndio nominal (renda nominal ou PIB nominal) ao longo de uma trajetória determinada.

Existem várias vantagens de se adotar uma “meta” para o dispêndio nominal:

  • Ao ter como meta estabilizar a DA, a política monetária (PM) não induz flutuações indesejadas no produto real se os choques são de oferta.
  • Permite ampliar o foco e considerar agregados monetários, preços de ativos, yields, etc., reduzindo a atenção obsessiva dedicada a juros – que são um indicador problemático da postura da PM – obtendo uma fotografia muito mais nítida da saúde da economia.
  • Como os preços apresentam rigidez, uma queda no dispêndio agregado não aparece rapidamente nos números da inflação. Desse modo, o dispêndio agregado é um indicador melhor de choques monetários do que indicadores de inflação como o CPI por exemplo. Por outro lado, se um choque de preço significativo acontece – aumento do preço do petróleo, por exemplo – os índices de inflação “cheios” vão subir, fazendo com que, dado o foco das atenções na inflação, não se perceba o enfraquecimento subjacente da economia. Isso foi o que aconteceu em 2008 como ilustrado abaixo.

Sobre esse último ponto, é interessante observar as diferenças de resultados a partir de choques de petróleo de magnitudes semelhantes.

A figura abaixo mostra que o choque no preço do petróleo entre 2003 e 2005 foi de magnitude semelhante ao choque ocorrido entre 2006 e 2008. Os reflexos nas taxas de inflação “cheias” também foram parecidos como pode ser observado na figura acima.

A taxa de juros estava mais baixa em 2008 (2%) do que em 2005 (3.5%), no entanto, a PM estava muito mais restritiva em 2008 do que em 2005! Como podemos afirmar tal “sacrilégio”? Basta ver o que estava acontecendo com o dispêndio nominal nos dois momentos. A figura abaixo mostra que enquanto, apesar do choque do petróleo, em 2005 a DA se manteve na sua trajetória associada à “Grande Moderação”, em 2008 ela caiu fortemente, se distanciando da trajetória. Assim, ao ignorar o dispêndio nominal, concentrando em indicadores “confusos” de inflação, o Fed praticou uma PM “restritiva” demais.

Por último, dado que nas últimas décadas só se falou em reduzir a inflação, agora falar em elevar a inflação ou as expectativas de inflação soa no mínimo estranho e deixa todos confusos. Assim, também do ponto de vista de “relações públicas”, falar em aumentar a renda ou dispêndio nominal soa muito melhor!

4 thoughts on “Vamos parar de falar em Inflação!

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