Lamento europeu

O argumento que o texto (aqui) reproduz do relatório do Deutsche Bank é indubitavelmente mal concebido. Para os analistas, a “Grande Moderação” foi um “embuste”, resultado tão somente de se ter permitido o prolongamento de um endividamento de longo prazo insustentável.

A “causalidade” é inversa. Foi a “Grande Moderação” que permitiu o aumento do endividamento. Isso fica claro da observação das figuras abaixo. Deixando de lado o período pós 2000, o endividamento das famílias (proxy para o endividamento total da economia) com relação ao PIB tem um comportamento que espelha o comportamento da bolsa. Ou seja, ambos sobem até 1965, permanecem estagnados nos 17 anos seguintes – período denominado de “Grande Inflação” – e voltam a subir após a estabilização de Volker/Reagan no início dos anos 1980. Fica claro, no caso, que o processo observado foi o resultado de uma “mudança de percepção de futuro”.  

Nos últimos 10 anos, coincidindo grosso modo com o que se convencionou chamar de regime Bretton Woods II (ver aqui), mas também coincidindo com guerras, ataque terrorista, manipulações contábeis (Eron, Worldcom, etc.) e aumento dos gastos, déficit e dívida públicos, a “percepção de futuro”, como indicado pela bolsa, “piorou”. O endividamento das famílias (refletindo basicamente o aumento da dívida hipotecária) passou a crescer mais fortemente, resultado direto do novo regime.

Os ajustamentos à crise da Ásia no final dos anos 1990 agora vão exigir adaptações. Essas adaptações não constituiriam necessariamente um “problema” caso o Fed não tivesse deixado a “Grande Moderação” “morrer” (ver aqui). Mas agora é tarde e as tentativas de recompor a economia mundial, que passam, necessariamente, por mudanças na política monetária da economia central (EUA) deixam o mundo em “polvorosa”.

4 thoughts on “Lamento europeu

  1. Thiago
    Tenho dúvidas sobre a utilidade de testes de Granger, especialmente para questões de natueza “estrutural” e abrangente como essa. Para questões mais “contidas” (câmbio-inflação, por exemplo) vejo a aplicabilidade com mais simpatia.

    • Como bons economistas a gente usa os testes q nos favorece hehehe. Falando sério agora, acho bastante corajoso por parte dos analistas detectar a correlação e sugerir direção da causalidade. Ainda mais numa questão tão abrangente (como vc msm disse). Devem ter apanhado.

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