“Desse mato não sai coelho”

Como era esperado, a reunião do FMI neste final de semana não resolveu coisa alguma. O comunicado final é “sonolento” e burocrático (aqui). O último parágrafo é um ótimo resumo:

Mandate for international monetary stability. While the international monetary system has proved resilient, tensions and vulnerabilities remain as a result of widening global imbalances, continued volatile capital flows, exchange rate movements, and issues related to the supply and accumulation of official reserves. Given that these issues are critically important for the effective operation of the global economy and the stability of the international monetary system, we call on the Fund to deepen its work in these areas, including in-depth studies to help increase the effectiveness of policies to manage capital flows. We look forward to reviewing further analysis and proposals over the next year.

A “sonolência” é reconhecido pelo próprio presidente Dominique Strauss-Kahn que declarou:

“The language is ineffective,” the I.M.F.’s managing director, Dominique Strauss-Kahn, conceded later. “The language is not going to change things. Policies have to be adapted.”

No entanto, já se tornou praxe que sempre que há uma crise financeira internacional entra em cena a discussão sobre “reforma na arquitetura financeira internacional”.

Em 1998, na esteira da crise da Ásia, esse tópico foi “quente” nas reuniões do FMI e de outros organismos, gerando vários ‘papers’ sobre o assunto.

Daquela crise nasceu o que ficou conhecido como “O Sistema Bretton Woods II”, nome dado por Peter Garber, Michael Dooley e Folkers-Landau (aqui), que restabeleceu os EUA como o país central no sistema monetário internacional.

A figura abaixo mostra o que ocorreu após a crise da Ásia. O déficit em conta corrente dos EUA aumentou, contrapartida da acumulação de reservas, primeiro dos países asiáticos que haviam sido diretamente impactados na crise, expandindo-se depois para países produtores de petróleo e outros emergentes (entre os quais o Brasil). Não deve ser visto como coincidência o aumento simultâneo do preço das casas nos EUA e vários outros países que também, não coincidentemente, começa a reverter quando o déficit em conta corrente dos EUA se retrai. Essa foi a forma com que países (Japão, por exemplo) com excesso de oferta de residências concretizaram as “exportações” dessas para os EUA. Enquanto que no Japão os recursos alocados no setor de construção (não comercializável internacionalmente) foram transferidos para setores de bens comercializáveis, nos EUA acontecia o movimento contrário.

Em 2005, Bernanke nomeou a situação de “desequilíbrio global” resultado desses movimentos de savings glut, tentando com isso explicar o conundrum levantado por Greenspan que se mostrava perplexo com a manutenção dos juros (reais e nominais) baixos apesar do “aperto” monetário (elevação dos juros básicos) que havia iniciado em meados de 2004.

Ligando esses pontos, não surpreende que um grande número de analistas aponte que a crise foi causada por um conjunto de fatores interelacionados:

  1. Desequilíbrios em conta corrente, especialmente os fluxos de poupança de mercados emergentes para os EUA.
  2. Política monetária “frouxa” nos EUA e,
  3. Inovações financeiras

Como já discuti em diversos posts (aqui, por exemplo), a causa da crise é mais prosaica, podendo ser diretamente debitada aos erros de política monetária, que deixaram a DA despencar.

Agora as discussões de “reformas da arquitetura financeira internacional” focam na reversão do sistema “Bretton Woods II”, com os países avançados, em especial os EUA, querendo que os países superavitários, especialmente a China, assumam o “fardo” do ajuste. O FMI endossa:

The I.M.F. has said that the renminbi is substantially undervalued, but like American policymakers it is wary about pressuring China too severely, and has few tools to do so given that it operates by consensus. “There is no way to believe that global growth can be rebalanced without some change in currency values,” Mr. Strauss-Kahn said.

The committee called on the I.M.F. to “deepen its work” in areas like global imbalances.

Ou seja, ainda vamos ouvir muitas “cantigas para tentar fazer boi dormir”

One thought on ““Desse mato não sai coelho”

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