Os custos da “obsessão” são altos

Na doença, frequentemente o que aparece de modo proeminente é o sintoma. No sistema econômico a inflação é um sintoma. Reflete choques (“vírus”) de diferentes tipos (nominais ou reais) que se abatem sobre a economia e que a política econômica, em particular a política monetária, tenta “neutralizar”. Muitas vezes, no entanto, sintomas iguais estão associados a “vírus” distintos, não cabendo tratamentos idênticos.

Ao longo de muitos anos, a inflação alta e crescente foi um indicador de que havia algo de errado com o “tratamento” sendo dispensado. Naquele período, final dos anos 1960 e anos 1970, havia a percepção, muitas vezes externada por Arthur Burns, que como chairman do Fed era a maior autoridade monetária do país, que o processo inflacionário observado não era o resultado de políticas monetárias mal concebidas, devendo ser imputado a fatores como poder dos sindicatos, tanto de trabalhadores como patronais e/ou ao poder de monopólio dos produtores de petróleo. Assim, um aumento da taxa de desemprego resultante desses choques, por exemplo, era contrabalançada por política monetária expansionista. Essa ação sistemática resultou na inflação crescente e volátil do período (ver figura).

Para que um sintoma deixe de se manifestar, a doença subjacente tem que ser curada. Volker que sucedeu a Burns (depois de um breve intervalo em que o Fed foi chefiado por alguém de quem ninguém lembra (G. William Miller)) resolveu encarar o “bicho” de frente. Assumiu o custo da empreitada e conseguiu “domar a fera”.

Greenspan logrou manter a inflação baixa e estável, apesar dos choques de natureza diversa que se abateram sobre a economia ao logo dos quase 20 anos em que liderou o Fed. Ou seja, como observado na figura, a inflação chegou ao seu “destino final”.

A figura seguinte ilustrando o comportamento do dispêndio nominal (ou demanda agregada) cobre período semelhante, mas sua divisão é definida pelo mandatário do poder monetário – Arthur Burns, Paul Volker (ignoro Miller), Alan Greenspan e Ben Bernanke.

Penso que a figura é auto-explicativa, indicando, sob as políticas equivocadas de Burns a perda da “estabilidade”, resultado direto do descontrole da inflação, o esforço de domar a inflação realizado por Volker que teve como consequência “controlar” o comportamento do dispêndio nominal que Greenspan conseguiu tornar “permanente”.

Por que a estabilidade foi perdida sob Bernanke? Como vimos na figura anterior, a inflação chegou ao seu “destino final”, ou seja, a “doença” da qual a inflação era sintoma foi “curada”. Mas Bernanke manteve a “obsessão” com a possibilidade de o sintoma voltar a se manifestar e com isso colocou o “paciente” (a economia) em risco de contrair um “novo mal”. A estabilidade foi novamente perdida, só que dessa vez acompanhada não de inflação em alta mas de “hipotermia”!

O “segredo “da manutenção da estabilidade sob Greenspan está no fato de que, ainda que de modo “inconsciente”, logrou manter a demanda agregada evoluindo de modo estável ao longo de uma trajetória bem definida. Isso está caracterizado por suas ações na segunda metade dos anos 1990, resistindo bravamente àqueles que consideravam que estava “atrás da curva” por não subir os juros tendo em vista a aceleração do crescimento real. Greenspan foi dos poucos a associar essa combinação de inflação em queda e aumento do crescimento com o choque positivo de produtividade que se manifestava.

Devotar atenção “obsessiva” ao sintoma (inflação), especialmente quando está atingiu seu “destino final”, não é o que melhor pode ser feito. Mais eficiente, nesse caso, é ter como “meta” a estabilidade da demanda agregada. Infelizmente, sabemos que é mais difícil “destruir” do que “construir”, ou seja, o erro de Bernanke foi, e vai continuar sendo custoso.

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