“Reprises”

Com relação à taxa de desemprego, não há muito – segundo Kocherlakota, entre outros – que o Fed possa fazer porque o problema é estrutural… Como vimos anteriormente, este “filme” é uma “refilmagem” do original de 1935.

Outro dia, em reunião com o primeiro ministro chinês Wen Jiabao, Obama pressionou por uma valorização do yuan, senão… Krugman e outros também acham que os EUA têm que ser mais “duros” e, no limite impor restrições comerciais (aumento de tarifas de importação, por exemplo) à China, que estaria contribuindo para a demanda agregada (DA) deprimida nos EUA.

Interessante esse ponto porque Krugman (e outros) acha que a curva de oferta da economia americana está bastante flat (pouquíssimo inclinada). Dado o crescimento débil da DA, isso significa que uma elevação da curva de oferta agregada (OA) devido ao aumento de custos imposto pelo aumento de tarifas de importação da China reduziria ainda mais o crescimento do PIB!

O que acontece é que Krugman (seguindo Gautti Eggertsson (aqui)) pensa que, como os juros estão em “zero”, que um aumento dos custos (deslocamento para cima da curva de OA) elevaria o crescimento do PIB. Isso se daria porque, na situação de juros “zero”, a curva de DA é positivamente inclinada. Nesse caso, uma redução de custos (através da redução dos impostos sobre a folha de salários que incide sobre o empregador, por exemplo) aumentaria as expectativas de deflação, reduzindo o crescimento! O “feito” está ilustrado na figura a seguir, onde  indica a taxa de inflação e  o crescimento do PIB real.

No entanto, muitos interpretaram o comunicado após a última reunião do FOMC como estabelecendo um limite mínimo (1%) além do qual o Fed não permitiria que a inflação caísse (a “put” de Bernanke). Nesse caso, a redução de custos (por qualquer via), combinada com uma política de “meta” para a inflação (1%, por exemplo, que coincidentemente é o nível em que a inflação se encontra) num ambiente em que a curva de OA de curto prazo é flat, indica que o Fed iria, para manter a inflação na “meta”, expandir a DA de modo a trazer a inflação de volta para a “meta” (1%). A figura a seguir mostra a “sequência”.

Uma redução de  custos desloca a curva de OA de curto prazo para baixo, reduzindo a inflação abaixo da “meta” e aumentando o crescimento do PIB. Para trazer a inflação de volta para a “meta”, o Fed expande a DA (e se o Fed tiver credibilidade é exatamente isso que o “povo” vai esperar que aconteça) para contrabalançar a queda da inflação abaixo da “meta”. A implicação é clara: Uma forte recuperação da DA.

Mas essa discussão tem um problema. Ela supõe que haja uma redução de custos. A possibilidade disso é remota, especialmente porque toda a “conversa” está, na prática, indo na direção de aumento de custos (sejam diretos, como tarifas mais elevadas e/ou aumento de impostos, ou indiretos, via aumento das “incertezas”). Nesse caso, como pode ser percebido na figura acima, a inflação vai subir além da “meta” (1%). Nesse caso, o Fed trabalharia para contrair a DA de modo a trazer a inflação de volta para a “meta”! Mesmo que não haja aumento de custos (a curva de OA de curto prazo não se desloca), se o governo tentar aumentar “estímulos” fiscais, o aumento resultante da inflação (por pequeno que seja dado o nível de ociosidade na economia, respnsável pela OA “achatada”) como consequência do aumento da DA vai exigir, para fazer a inflação voltar para a “meta”, que o Fed seja contracionista. Isso nos permite entender porque os “estímulos” concedidos até aqui não tiveram o efeito desejado.

Em qual sentido vivemos, como no caso do “desemprego estrutural”, uma “reprise”? Essa está ligada ao fato de que Bernanke não subscreve nem ao argumento daqueles da “escola austríaca”, para quem a crise foi o resultado de malinvestments (fruto, por exemplo, de políticas que incitaram excesso de investimentos), nem aos argumentos dos Novos Keynesianos ou Monetaristas, que acreditam que o “gatilho” da crise se deve a erros de política monetária (PM) que resultaram numa queda abrupta da DA. Na introdução do seu livro (Essays on the Great Depression), Bernanke escreve que a Depressão foi causada por erros de PM magnificados por se deixar que fossem seguidos por uma corrida generalizada aos bancos (ponto elaborado no capítulo 3 do livro).

Como na crise em curso ele acha que não cometeu nenhum erro de PM, isso significa, para ele, que a crise foi o desdobramento natural de uma “corrida aos bancos” clássica, um problema que a política de “quantitative easing” (QE) (“afrouxamento quantitativo”) poderia “facilmente” resolver. (A Economist mesmo, apesar de sugerir cortes de impostos sobre a folha, acha que essa recessão difere da maioria porque não foi causada por uma PM apertada (aqui)).

Assim como John Williams (do Board do Fed) na reunião de novembro de 1937 argumentou que o Fed não deveria “rever” os aumentos das reservas compulsórias impostos em julho de 1936, março e maio de 1937, para não correr o risco de ser acusado de ser responsável pela recessão de 1937/38, acho difícil que Bernanke admita a necessidade de estimular a DA. Ele alega que a inflação está “baixa demais” devido à forte ociosidade na economia, mas nada diz sobre o que teria causado essa ociosidade persistente. Nem poderia, visto que se admitisse estaria simultaneamente confessando que cometeu um grave erro de política!

Curiosidade: John Williams era um acadêmico de Harvard. Bernanke é de Princeton. Para esse grupo (acadêmicos) o raciocínio tem que ser “rigoroso”. Um não acadêmico como Greenspan não teria nenhum problema em admitir que havia cometido uma “inconsistência intelectual”. Simplesmente mudaria a política. Isso não é “chute” meu. Só para dar um exemplo, na reunião do FOMC de Agosto de 2005, momento em que nos 20 meses anteriores o preço do petróleo havia dobrado, Greenspan diz no comunicado:

“O Comitê considera que, com uma ação apropriada de política monetária, os riscos para cima e para baixo na obtenção tanto do crescimento sustentável quanto da estabilidade de preços, devem se manter equilibrados”

 Alguém consegue definir a expressão ação apropriada de PM? Uma conjetura; “se eu estava errado antes, vou concertar o erro”.

Desculpem, foi mais um artigo do que um Blog!

Pré estreia

Krugman (aqui) enfatiza o fato de que  o “filme do desemprego estrutural”, “relançado” por Kocherlakota estreou prmeiro em 1935!

Who said this? More important, when did he say it?

In the light of this brief survey of the characteristics of the labor supply and the probable demand for labor, what is the outlook for unemployment? My opinion is that the demand, even though active and strong, will be met by supply which will be badly adjusted to fit it. There may very well be a great shortage of labor of certain kinds, with no prospect of any shifting or adapting which will bring about an increased supply. But this will be accompanied by an actual surplus of labor in other occupations. I believe this present labor supply of ours is peculiarly unadaptable and untrained. It cannot respond to the opportunities which industry may offer. This implies a situation of great inequality-full employment, much over-time, high wages, and great prosperity for certain favored groups, accompanied by low wages, short time, unemployment, and possibly destitution for others.

The answer is, it’s from a paper titled The Problem of Unemployment and the Changing Structure of Industry (subscription required), from the Journal of the American Statistical Association, published in 1935. That’s right: in the depths of the Great Depression, wise heads proclaimed the problem one of structural unemployment, which obviously could not be cured just by increasing demand.

Discuti essa questão aqui e aqui

É sempre culpa dos outros!

Obama não podia ser mais explícito. Quer que os chineses ajam para “ajudar” os EUA apreciando o yuan contra o dólar. Obama diz:

UNITED NATIONS — President Obama increased pressure on China to immediately revalue its currency on Thursday, devoting most of a two-hour meeting with China’s prime minister to the issue and sending the message, according to one of his top aides, that if “the Chinese don’t take actions, we have other means of protecting U.S. interests.”

Leia a íntegra aqui. Por que, ao invés de pressionar os chineses,  não “pressiona” Bernanke, mesmo que na surdina, como FDR fez com o então Chairman do Fed Marriner Eccles em 1938? Por que durante mais de um ano deixou três vagas sem serem preenchidas no Board, cujos indicados ainda estão por ser confirmados, deixando o caminho livre para o grupo dos “aloprados ” encastelados em alguns dos Feds regionais?

Pior ainda, ao ameaçar “retaliar” com aumentos de tarifas vai na direção errada, elevando custos e reduzindo o crescimento ainda mais!

Bernanke não “se enxerga” mesmo!

Em sua palestra hoje Bernanke continua em “negação”. “Ajustes técnicos resolvem o problema”! Leia a íntegra aqui.

How Economics Helped Us Understand and Respond to the Crisis
“The financial crisis represented an enormously complex set of interactions–indeed, a discussion of the triggers that touched off the crisis and the vulnerabilities in the financial system and in financial regulation that allowed the crisis to have such devastating effects could more than fill my time this afternoon.1 The complexity of our financial system, and the resulting difficulty of predicting how developments in one financial market or institution may affect the system as a whole, presented formidable challenges. But, at least in retrospect, economic principles and research were quite useful for understanding key aspects of the crisis and for designing appropriate policy responses”.

Parece que ele continua a não entender a participação que teve no processo. Afinal, o gatilho da arma de maior calibre foi ele quem “puxou”!

Com certeza é um “bicho” diferente

A figura mostra o comportamento do PIB real ao longo de todas as recessões do pós guerra. Além de nenhuma ter sido tão profunda (a de 1957/58 chegou perto), em absolutamente todas exceto, claro, a atual, nos doze messes que se seguiram ao final oficial (aquele decretado pelo NBER) o PIB havia, pelo menos, alcançado o nível que prevalecia imediatamente antes de a recessão ter início.

Uma definição popular (não necessariamente precisa) é que uma economia entra em depressão se o PIB real cai pelo menos 10%. Certamente estamos longe disso, mas e daí?  Perde-se tempo com discussões esotéricas. Economistas do governo e alguns que se autodenominam “liberais” alegam que as raízes dessa recessão tornaram a recuperação especialmente difícil; que os estímulos fiscais “salvaram o dia” e que para continuarmos “melhorando” precisamos de mais do mesmo remédio. Alguns “conservadores” alegam que políticas governamentais “hiperativas” fizeram mais mal do que bem aumentando as incertezas e elevando custos, que solaparam a confiança de consumidores e empresários afetando a capacidade “natural” de recuperação da economia.

E o Fed, à distância, olhando a paisagem “arrasada”, se eximindo de responsabilidade e alegando que nada pode (ou deve) fazer. Mas, se as coisas “piorarem”…! aí, quem sabe? E deixando muitas animados com essa “insinuação”!