“Regra de Taylor” goela abaixo – Parte 2

Em artigo no WSJ (aqui), Taylor volta à carga na sua cruzada em prol da revisão do mandato do Fed para que este contemple “apenas” o objetivo de “estabilidade de preços no longo prazo no contexto claro de um quadro de estabilidade econômica”. Ou seja, quer “obrigatorizar” a utilização da sua “Regra” na condução da política monetária. Não vejo muita diferença do mandato atual que rege: “estabilidade de preços e máximo emprego”, bastando interpretar “estabilidade econômica” como “taxa de desemprego aceitável”!

Insiste, lógico, e de maneira coerente, que a crise teve origem na política monetária praticada em 2002-2004, que teria desrespeitado a “Regra”. Segundo Taylor 75% dos economistas de empresas e 50% dos economistas acadêmicos dizem que a prática de uma PM “frouxa” exacerbou a “bolha” imobiliária que conduziu a economia à crise financeira. Estou com os 25% dos não acadêmicos que não acham isso (como discutido no longo post (aqui)).

Taylor argumenta que a melhor maneira de reduzir o desemprego é encorajar o investimento privado. E apresenta o gráfico mostrando a correlação negativa entre investimento como proporção do PIB e taxa de desemprego. O gráfico é uma “belezura”, se assemelhando ao desenho de um peixe feito por uma criança ou, como representei na figura abaixo, a uma “jarra” ou “vaso” deitado! Mas, observem, não temos aí nenhuma indicação de “causalidade”, com ambas variáveis respondendo à situação presente e prospectiva de economia.  É claro que um aumento do crescimento econômico atual e/ou esperado vai simultaneamente reduzir o desemprego e elevar os investimentos. 

Taylor insiste, argumentando que a história das duas últimas décadas mostra que reduções das compras do governo como proporção do PIB estão associadas com reduções do desemprego. Não apresenta o gráfico, mas este já havia sido apresentado em seu post (aqui) de duas semanas atrás (que inclusive me inspirou para publicar o longo “Peso do governo e crescimento econômico” (aqui).

Naquele post tentei montar uma “historinha” causal para mostrar que governo “obeso” atrapalha o funcionamento da economia, reduzindo seu crescimento. Parece que a conclusão de Taylor é a mesma. No entanto a correlação que ele apresenta (ver figuras abaixo), não justifica a conclusão.  

Lembro que “gastos do governo” tem dois componentes. Um trata das “compras” (consumo e investimento público) enquanto o outro reflete as “transferências” (como, por exemplo, seguro desemprego). Taylor está se referindo às compras, deixando de lado as transferências porque essas sobem quando a economia entra em recessão (e o desemprego aumenta). Mas durante períodos de enfraquecimento da economia, as compras do governo também tendem a aumentar (reformar estradas e pontes, por exemplo). Por esta razão, não se pode afirmar que este aumento nas compras está “causando” maior desemprego (ou menor investimento privado). Tudo faz parte do mesmo “bolo” – o enfraquecimento da economia. A figura abaixo mostra os gastos e as compras do governo. Como Krugman gosta de afirmar (aqui, por exemplo), a maior parte do aumento do déficit ocorrido no pós crise se deve ao aumento das transferências (algo como 5% do PIB) e pouco (em torno de 1.2% do PIB) como consequência do aumento das compras (“estímulos”).

O problema, como vimos no “Peso do governo…” é que o aumento na participação do governo tende a deixar “marcas”. Ao longo dos anos 1990, o “peso do governo” foi sendo reduzido. A economia teve um ótimo desempenho (“grande moderação”). Por outro lado, durante a última década o “peso do governo” voltou a se elevar. O desempenho da economia foi menos “brilhante”. Mas a crise, como meus leitores já desconfiam, foi uma consequência do “desequilíbrio monetário” (aqui) ocasionado pelas ações do Fed, não em 2002-04, como indicado pela “Regra”, mas em 2008 (devido ao desequilíbrio que a “Regra” não percebeu)!

HT S. Kinoshita

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