Shiller acredita em Papai Noel!

Que pena que perdi esse “presente” do dia de Natal! Em “Estímulo, sem mais endividamento”, Robert Shiller (aqui) “resolve” o problema econômico, alegando, através da aplicação do “multiplicador do orçamento equilibrado” (igual a 1), que as coisas podem melhorar sensivelmente:

But the balanced-budget multiplier is simpler to judge: If the government spends the money directly on goods and services, that activity goes directly into national income. And with a balanced budget, there is no clear reason to expect further repercussions. People have jobs again: end of story.

Teria sido muito mais útil e interessante se, ao invés de “apelar”, tivesse explorado as razões para o país não ter caído em depressão após o fim da guerra. A expectativa desse evento é que havia levado Paul Samuelson a chamar a atenção para o multiplicador do orçamento equilibrado em 1943:

Economists embraced this multiplier because it seemed to offer a solution to a looming problem: a possible repeat of the Great Depression after wartime stimulus was withdrawn, and when new rounds of deficit spending might be impossible because of the federal government’s huge, war-induced debt.

It turns out that this worry was unfounded. The Depression did not return after the war. But in the early 1940s, economists justifiably saw the possibility as their biggest concern. Their discussions have been mostly forgotten because they didn’t have much relevance for public policy — until now, that is, when we again have a huge federal debt and a vulnerable economy.

Nota: Segundo o MOE, um aumento do gasto público acompanhado de um aumento de imposto calibrado de tal maneira que ao final das contas o aumento da receita será igual ao aumento do gasto, aumenta a renda no exato montante do aumento do gasto.

“Hello 2011″

Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI, opina sobre o que será 2011 (aqui):

The two-speed global economic recovery is likely to dominate 2011, with weak growth in advanced economies barely enough to bring down unemployment and emerging markets facing the challenges of success, including how to avoid overheating and handle strong capital inflows, the IMF’s Chief Economist, Olivier Blanchard, said.

“1997” – o ano em que tudo começou

Esse trecho de um post recente do John Taylor (aqui) me “inspirou”:

If the Fed had not kept interest rates so low when inflation was rising and the economy was growing in the 2002-2005 period, then we would have avoided much of the boom and the bust which eventually caused the devastating increase in unemployment.

Essa “conclusão” já se tornou “sabedoria convencional”, condição que tenho sempre grande prazer em contestar.

Em outras ocasiões tentei mostrar que por trás da “Grande Recessão” está o erro de política monetária que deixou o dispêndio nominal (ou demanda agregada) “despencar” (ver aqui, por exemplo).

A figura 1 mostra que o preço das casas começou sua “escalada” em 1997, muito antes do período de taxas de juros “baixas” como aludido por Taylor.  Coincidentemente, em 1997 o Congresso aprovou legislação eliminando o imposto sobre ganhos de capital na venda de residências primárias a cada dois anos. Mantidos os outros condicionantes encapsulados nos incentivos à aquisição de casa própria (que impulsionaram os financiamentos subprime), essa mudança nas regras tributárias foi, a meu ver, o fator primordial para o aumento de preços verificado. Como acontece frequentemente nesses casos, o processo virou ““bolha” de neve”, que um dia “derrete”.

O ano de 1997 também marcou o início da ocorrência de fato contrário à “sabedoria convencional”: a queda simultânea da inflação e da taxa de desemprego. A figura 2 mostra o “evento” que deixou analistas um tanto perplexos!

Na figura 3, vemos que em 1997 o crescimento da produtividade se acelerou. A figura 4 mostra, no contexto de um modelo de oferta e demanda agregada dinâmico que esse fato é consistente com a queda da inflação e aumento do crescimento real (queda do desemprego), com a economia indo do ponto a para o ponto b.

Nesse momento, o Fed colocou o seu “chapéu” de inflation targeter e, ao ver a inflação caindo abaixo de sua “meta implícita” de algo como 2%, reagiu elevando o crescimento da DA, levando a economia para o ponto c.

Nas figura 5 e 6, observamos que esse “equívoco” de reagir a um choque de oferta positivo, o Fed desestabilizou a economia, que vinha, até então, evoluindo ao longo de trajetória contemplando um crescimento do dispêndio nominal de pouco mais do que 5%.

Na sequência o Fed se “assustou” com a perspectiva de uma possível alta da inflação decorrente de uma taxa de desemprego “baixa demais” e contraiu a DA. (isso pode ser constatado pelas manifestações de importantes analistas como Paul Krugman (aqui)):

Most economists believe that the US economy is currently very close to, if not actually above, its maximum sustainable level of employment and capacity utilization. If they are right, from this point onwards growth will have to come from increases either in productivity (that is, in the volume of output per worker) or in the size of the potential work force; and official statistics show both productivity and the workforce growing sluggishly. So standard economic analysis suggests that we cannot look forward to growth at a rate of much more than 2 percent over the next few years. And if we – or more precisely the Federal Reserve – try to force faster growth by keeping interest rates low, the main result will merely be a return to the bad old days of serious inflation.

 Outros choques negativos de demanda como a queda dos preços das ações e ataque terrorista ampliaram esse efeito. Como mostra a figura 7, a inflação ficou contida ao longo desse período. Assim, de modo a fazer a economia retornar à sua trajetória, a política monetária foi (corretamente, ao contrário da afirmação de Taylor) expansionista, sendo que em 2005, como pode ser constatado nas figuras 5 e 6, o dispêndio nominal havia retornado à sua tendência.

Ao longo de todo esse tempo, seja com o crescimento da DA aumentando, seja com o crescimento da DA contraindo, o preço das casas (figura 1) continuou na sua “subida morro acima”, enfraquecendo a tese de que esse movimento tenha sido causado pela política monetária “frouxa”.

Ao contrário do que muitos alegam, Greenspan passou a “bola redonda” para Bernanke já que em 2005  a DA havia retornado para sua trajetória, permanecendo nela ate 2007. No entanto, a partir do início de 2008, o Fed, obcecado pela possibilidade de um aumento da inflação decorrente da elevação das commodities (figura 8), manteve a política monetária “apertada”, o que induziu a forte queda no dispêndio agregado (figura 6), que pela primeira vez desde 1938 registrou variação negativa! Essa é a verdadeira causa da “Grande Recessão”, o resto é racionalização!

Observação: Propositadamente em nenhum momento mencionei a palavra “juros”. O nível da taxa de juros, como já dito por Friedman há muitas décadas, e sempre reafirmado, não é um bom indicador da postura da política monetária. Na análise acima, o “indicador” da postura da PM é se o dispêndio nominal (ou demanda agregada) (Py) está acima ou abaixo da sua trajetória (ou “meta”).

A todos meus votos de um 2011 bastante produtivo!

Revisão Macro – 2010

Uma sucinta revisão macro ilustrada da economia americana em 2010 (aqui):

The year is coming to a close, which inspires looking at recent history for some perspective on the year ahead. The past is hardly a flawless window into the future, but it’s a good place to start for considering the possibilities for 2011. The following charts, courtesy of the economics database at the St. Louis Fed, summarize some of the key macro trends over the past year.

The basic message in the graphs below: the economy is on the mend, but it’s a precarious rebound. The main challenges: job growth is still tepid and the housing market continues to suffer. Elsewhere, the economy is showing signs of improvement. But the struggle between growth and contraction rolls on. The forces of expansion have the upper hand these days, but only marginally so. More of the same is expected for 2011.

Sonho e realidade – a progressão do euro

É interessante comparar esses dois artigos sobre o euro, um de janeiro desse ano e o outro publicado hoje. O primeiro (aqui) é uma celebração dos 10 anos da moeda única e é intenso na sua crítica aos críticos americanos do projeto:

To sum up, U.S. academic economists suggested that in light of the historical experience of U.S. monetary and fiscal union, Europe would face major adjustment problems under a single currency.

O segundo (aqui) é uma confirmação das críticas à luz dos eventos ao longo do ano:

Today, many of those predictions — handily dismissed at the time — are coming true. For most of 2010, Europe struggled to contain a debt crisis that has prompted investors to drive up the yield on government bonds. And despite two bailouts — for Greece and for Ireland — the anxiety has not dissipated, and attention has turned to other faltering economies like Portugal and Spain.

“Debate Malthusiano”

Ao longo de mais de 60 anos, a tendência do preço real das commodities foi de queda continua e significativa, a despeito de alguns choques notáveis (como o do preço do petróleo em 1973) – ver figura. E essa tendência tem lugar durante um período em que a população do mundo mais do que dobrou, passando de menos de 3 bilhões em 1947 para 7 bilhões em 2010.

Krugman (aqui) olha um pequeno intervalo de tempo e conclui:

 [T]oday, as in 2007-2008, the primary driving force behind rising commodity prices isn’t demand from the United States. It’s demand from China and other emerging economies. As more and more people in formerly poor nations are entering the global middle class, they’re beginning to drive cars and eat meat, placing growing pressure on world oil and food supplies. 

Krugman está contestando aqueles que vêem o aumento do preço das commodities como resultado da política monetária “frouxa”. Nesse ponto ele tem razão. Como mostra a figura abaixo, assim como o preço das commodities caiu na segunda metade de 2008 quando teve início a grande recessão – aqui medida pelo crescimento da produção industrial das economias emergentes – com a retomada dessas economias o preço das commodities voltou a subir . Como vimos na figura acima, o “efeito China” é relevante, mas isso implica que ajustamentos serão feitos ao longo do tempo…

Ao final, fico com Don Boudreau (aqui):

If economic growth since the industrial revolution coincided with increasing resource supplies, why should we expect that continued economic growth will suddenly start to have the opposite, dreary effects predicted by Mr. Krugman?”

Update: Esse artigo (aqui) é interessante:

As the leader of the Cornucopians, the optimists who believed there would always be abundant supplies of energy and other resources, Julian figured that betting was the best way to make his argument. Optimism, he found, didn’t make for cover stories and front-page headlines.

No matter how many cheery long-term statistics he produced, he couldn’t get as much attention as the gloomy Malthusians like Paul Ehrlich, the best-selling ecologist. Their forecasts of energy crises and resource shortages seemed not only newsier but also more intuitively correct. In a finite world with a growing population, wasn’t it logical to expect resources to become scarcer and more expensive?

Update (13/1): Guia definitivo do pensamento Malthusiano moderno. Muito divertdo (aqui):

This year the human population will reach seven billion. And probably the same number of newspaper column inches will be filled with Malthusian cant. We can expect everyone from unreconstructed population-controllers to trendy-sounding greens to fret out loud about the swarm of people now raiding Mother Nature’s allegedly sparse larder. Already National Geographic has kicked off a year of commentary on the seventh billion human by asking, ‘Can the planet take the strain?’. The New York Times says we could be facing our ‘Wile E Coyote moment’: ‘over the cliff but not realising it yet’.

Para os chineses a transição do comunismo para o capitalismo não é fácil…

Esse artigo (aqui) sobre “Porque os chineses não gastam mais”:

If anyone on the planet can afford to head down to the neighborhood mall and indulge in a shopping spree, you’d think it would be the Chinese. After all, they live in an economy that routinely posts growth rates of 9% or higher, resulting in surging incomes and boundless job opportunities. While much of the world experienced GDP contractions and dramatic spikes in unemployment during the Great Recession, China, supported by massive stimulus programs, barely missed a beat. In theory, as income increases, and the prospects for future earnings become brighter, families should be more willing to postpone savings and spend now.

But in China, just the opposite is happening. It’s still proving difficult to convince the average Chinese to part with his or her money, even though his or her stash of cash is bigger than ever. Sure, Chinese consumers are spending more and more each year on items like cars and appliances. But simultaneously, the urban Chinese household saves twice as much of its income today as 20 years ago – from 15% in the early 1990s to over 30% in recent years. Oddly, as Chinese incomes have grown, so has their propensity to save.

Comenta esse trabalho publicado no NBER (aqui):

China’s household saving rate has increased markedly since the mid-1990s and the age-savings profile has become U-shaped during the 2000s. We find that rising income uncertainty and pension reforms help explain both of these phenomena. Using a panel of Chinese households covering the period 1989-2006, we document that strong average income growth has been accompanied by a substantial increase in income uncertainty. Interestingly, the permanent variance of household income remains stable while it is the transitory variance that rises sharply. A calibration of a buffer-stock savings model indicates that rising savings rates among younger households are consistent with rising income uncertainty and higher saving rates among older households are consistent with a decline in the pension replacement ratio for those retiring after 1997. We conclude that rising income uncertainty and pension reforms can account for over half of the increase in the urban household savings rate in China since the mid-1990s as well as the U-shaped age-saving profile.

Mudanças no Fed

A partir de 1 de janeiro, teremos 4 novas caras no grupo votante do FOMC. Uma caracterização dos novos membros está (aqui):

WASHINGTON — As the Federal Reserve debates whether to scale back, continue or expand its $600 billion effort to nurse the economic recovery, four men will have a newly prominent role in influencing the central bank’s path.

One (Charles Plosser – Philadelphia) is an economist who fears that the Fed’s easy-money policies could lead to manias like the housing bubble that burst in 2007. Another (Richard Fisher – Dallas) is a Texas Democrat who served in the Clinton White House, but is wary of the Fed’s aggressive efforts to combat unemployment.

A third (Narayana Kocherlakota – Minneapolis) is a precocious economist who graduated from Princeton at 19. And the fourth (Charles Evans – Chicago) is the only one who agreed wholeheartedly with the Fed’s chairman, Ben S. Bernanke, that the economy was at risk of falling into a dangerous cycle of deflation last summer and that an additional monetary boost was needed.

Sugestões de leitura para um feriado produtivo!

Richard Baldwin editor-chefe da VoxEu (aqui) faz um apanhado dos eventos dos últimos 3 anos e elenca uma sugestão de leituras para um melhor entendimento da “questão européia”:

Holiday reading

Vox will not post new columns between 25 December 2010 and 2 January 2011 (unless something really radical happens in the Eurozone). There is, however, plenty to catch up on. My guess is that European leaders will be back at the drawing board very shortly. If you want to understand the basic economics of the problems they are trying to solve, you may want to read, or re-read some of the columns mentioned above.

Update 3/1/2011: Esse (aqui) é a sugestão Top Ten do FMI